01 · Antes de procurar casa

Começa pela pergunta menos emocionante: que operação consegues sustentar?

Se começares pelos anúncios, é fácil tentares encaixar as tuas contas numa casa de que já gostas. Se começares pelas contas, podes procurar com um limite real.

Para comprar a primeira habitação tens dois limites diferentes. O primeiro é quanto dinheiro consegues colocar no início. O segundo é que prestação mensal consegues pagar sem viver permanentemente no limite.

Em Portugal, as instituições têm de avaliar a tua solvabilidade antes de conceder crédito. O Banco de Portugal estabelece também limites macroprudenciais para novos contratos: no crédito para habitação própria e permanente, o montante do empréstimo não deve, em regra, ultrapassar 90% do menor valor entre o preço de aquisição e a avaliação.

A regra Hogareza Não procures primeiro a casa que gostas. Procura primeiro a operação que te encaixa.

Depois usa esse intervalo para filtrar casas sem transformar cada anúncio numa negociação contigo próprio.

1
Poupança que realmente podes usarNão tens de colocar todo o dinheiro disponível na compra.
2
Rendimentos líquidos estáveisOlha para o que entra de forma recorrente.
3
Outros créditosAutomóvel, pessoal, cartões ou outros empréstimos também pesam na taxa de esforço.
4
Prestação confortávelUma prestação que ainda deixe margem para poupar e absorver imprevistos.
→
Faz isto agoraAponta a tua poupança, rendimentos líquidos e prestações de outros créditos.
Usar os meus números →
02 · Entrada + impostos + custos

Em Portugal, a referência de entrada não é exatamente a mesma que em Espanha.

Para habitação própria e permanente, a recomendação do Banco de Portugal prevê um LTV máximo de 90% sobre o menor valor entre o preço de compra e a avaliação. Numa operação comum sem garantia pública, isso significa que deves contar com uma parte do preço que terá de ser suportada por ti.

Mas a entrada não é a única verba. Também tens de considerar impostos e custos da aquisição, como IMT, Imposto do Selo e despesas de registo ou formalização, dependendo do caso.

Exemplo simples

Uma casa de 200.000 €

Exemplo indicativo
Preço200.000 €
Crédito 90%180.000 €
Parte não financiada20.000 €
+ impostos/custosVariável

O exemplo mostra apenas a mecânica. O valor real de impostos e custos depende do imóvel, do comprador, dos benefícios aplicáveis e das condições concretas da operação.

IMT Jovem pode mudar bastante a conta inicial

Em 2026, a legislação portuguesa mantém um regime de isenção de IMT para a primeira aquisição de habitação própria e permanente por jovens com 35 anos ou menos, desde que cumpram os restantes requisitos. No Continente, a tabela de 2026 prevê isenção total até 330.539 € e aplicação parcial no escalão seguinte. O regime está também associado à isenção de Imposto do Selo prevista para estes casos.

Não contes automaticamente com a isenção só pela idade. A lei inclui condições sobre primeira aquisição, dependência fiscal e propriedade de imóveis habitacionais nos anos anteriores, entre outras.

O ponto importante:

duas pessoas com a mesma poupança podem precisar de montantes iniciais diferentes se uma beneficiar de IMT Jovem e Garantia Pública e a outra não. Faz sempre as contas com as regras aplicáveis ao teu caso.

03 · Que preço procurar

A tua casa não deve ser definida apenas pelo máximo que o banco aceita financiar.

O Banco de Portugal indica que o montante total das prestações mensais dos empréstimos de um cliente —incluindo o novo crédito e outros créditos já existentes— não deve, em regra, ultrapassar 45% do rendimento mensal líquido.

Esse limite é uma regra de concessão de crédito, não um objetivo pessoal. Se chegares aos 45% mas deixares de conseguir poupar, viajar, suportar uma reparação ou absorver uma quebra temporária de rendimento, a operação pode estar demasiado apertada para ti.

Mais confortável

A prestação encaixa e ainda existe margem.

Consegues manter poupança e absorver despesas inesperadas sem recorrer imediatamente a mais dívida.

Zona de atenção

A prestação cabe, mas quase todo o rendimento fica comprometido.

Testa o cenário com despesas mais altas ou uma subida temporária da prestação antes de aumentares o orçamento.

O prazo também conta. Segundo os limites atuais do Banco de Portugal, os contratos de crédito à habitação não devem ter prazo máximo superior a 40 anos para clientes com 35 anos ou menos e 35 anos para clientes com mais de 35 anos. Um prazo maior reduz a prestação, mas aumenta o tempo durante o qual pagas juros.

→
Faz isto agoraEscolhe primeiro uma prestação confortável e trabalha para trás até chegares ao preço da casa.
Testar prestação →
04 · Quando a entrada é a barreira

Se tens rendimentos mas pouca poupança, a Garantia Pública pode mudar a operação.

O regime português de Garantia Pública para jovens até aos 35 anos foi criado precisamente para situações em que existe capacidade financeira mas a entrada é difícil de acumular.

Nos contratos abrangidos, a garantia do Estado pode cobrir até 15% do valor da transação e destina-se a permitir financiamento entre 85% e 100% desse valor. A garantia vigora no máximo durante dez anos e não significa que o Estado pague a casa por ti.

Quem pode beneficiar?

Entre os requisitos atualmente previstos estão: ter entre 18 e 35 anos, domicílio fiscal em Portugal, adquirir a primeira habitação própria e permanente, não ser proprietário de outro imóvel habitacional, ter a situação fiscal e contributiva regularizada e cumprir os limites de rendimento definidos pelo regime.

O valor da transação não pode ultrapassar 450.000 €. Os contratos abrangidos pelo regime atual têm de ser celebrados até 31 de dezembro de 2026.

Pode valer a pena analisar

Tens rendimento estável, pouca entrada e margem mensal.

A Garantia Pública pode reduzir a barreira inicial se cumprires os requisitos e a instituição aprovar o crédito.

Não resolve isto

A prestação já ficaria demasiado alta.

Financiar mais reduz a entrada, mas aumenta o montante do empréstimo. Não corrige uma casa que está acima do teu orçamento mensal.

A garantia não é uma aprovação automática.

Mesmo cumprindo os requisitos, a instituição continua a avaliar a solvabilidade e pode decidir não conceder o crédito.

05 · Crédito habitação sem jargão

Quando comparares propostas, não olhes apenas para a prestação.

Duas propostas com prestações parecidas podem ter custos diferentes. O prazo, a taxa, os produtos associados, os seguros e outros encargos influenciam o custo total.

TAN e TAEG não são a mesma coisa

A TAN representa a taxa anual nominal do empréstimo. A TAEG procura refletir de forma mais abrangente o custo do crédito, incorporando juros, comissões, impostos e outros encargos considerados no cálculo. Para comparar propostas, a TAEG é normalmente uma referência mais completa.

Taxa fixa, variável ou mista

Na taxa fixa, a taxa contratada mantém-se durante o período acordado. Na variável, a prestação pode alterar-se de acordo com o indexante e o spread. Na mista, existe normalmente um período inicial de taxa fixa seguido de taxa variável. O que faz sentido depende do preço, prazo, condições concretas e da tua tolerância a mudanças na prestação.

FINE e período de reflexão

Antes da contratação, a instituição entrega a Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) com as condições da proposta. Em Portugal existe um período mínimo obrigatório de reflexão de sete dias a partir da apresentação da proposta, durante o qual o cliente não pode aceitá-la.

Tradução para linguagem normal Não compares só “quanto pago por mês”. Compara quanto custa o crédito e o que tens de contratar ou manter para ter essas condições.
06 · Coloca os teus números

Simula entrada, prestação e taxa de esforço na mesma página.

Este cálculo não prevê se uma instituição vai aprovar o crédito. Serve para perceberes rapidamente se o problema principal é a entrada, a prestação ou ambos.

Simulador Hogareza

A minha primeira habitação

Indicativo · sistema francês · sem comissões, seguros ou produtos associados
Montante inicial estimado—
O que faltaria com a tua poupança—
Prestação estimada—
Taxa de esforço estimada—

O valor de custos é apenas uma hipótese para simulação. IMT Jovem, Imposto do Selo, registos, avaliação, seguros, comissões e outros custos dependem do caso concreto. A taxa de esforço apresentada é uma estimativa simples e não reproduz integralmente o cálculo de solvabilidade realizado pelas instituições.

Como ler o resultado:

se te falta muito dinheiro inicial mas a prestação fica confortável, a entrada pode ser o principal obstáculo. Se a entrada é possível mas a taxa de esforço fica demasiado alta, o problema está no preço ou no montante financiado.

07 · A ordem certa

De “quero comprar” até à escritura: 10 passos sem começar pelo fim.

01
Organiza as tuas contas

Poupança, reserva, rendimentos, dívidas e prestação confortável.

Antes de procurar
02
Define um intervalo de preço

Uma margem realista, não o máximo otimista.

Antes de procurar
03
Confirma IMT Jovem e Garantia Pública

Verifica requisitos oficiais antes de incluíres estes benefícios nas contas.

Antes de procurar
04
Pede uma primeira análise de financiamento

Ajuda-te a perceber que tipo de operação pode fazer sentido.

Antes de reservar
05
Procura dentro do teu intervalo

Preço, estado, condomínio, eficiência, obras e localização.

Pesquisa
06
Analisa o imóvel e a documentação

Percebe registos, encargos, licença e condições antes de entregar dinheiro.

Antes do CPCV
07
Compara propostas reais

Com o imóvel concreto, avaliação e o teu perfil completo.

Proposta
08
Lê a FINE

TAEG, TAN, prazo, seguros, produtos associados e custo total.

Antes da escritura
09
Usa o período de reflexão

Os sete dias existem para comparar e esclarecer dúvidas, não para esperar pela assinatura.

Antes da escritura
10
Compra mantendo uma reserva

Depois chegam mudança, condomínio, seguros, manutenção e imprevistos.

Compra
08 · Se comprarem dois

Comprar em casal melhora algumas contas e cria perguntas novas.

Dois rendimentos podem aumentar a capacidade de financiamento, mas convém perceber desde o início quem coloca quanto, como será paga a prestação e como ficará a titularidade do imóvel.

Se um dos dois coloca muito mais dinheiro na entrada, se as prestações não serão divididas em partes iguais ou se existe uma situação patrimonial diferente, é melhor esclarecer e documentar isso antes da escritura.

Casal jovem a celebrar em casa
Uma conversa útilQuanto mais diferentes forem as contribuições, menos convém deixar as percentagens implícitas.
✓
Quem coloca quanto no inícioEntrada, impostos e restantes custos.
✓
Como será paga a prestaçãoMetade/metade ou de acordo com os rendimentos.
✓
Como ficará a propriedadeConfirma que a titularidade corresponde ao que ambos querem acordar.
09 · Erros que complicam a compra

Seis erros muito normais quando compras casa pela primeira vez.

1. Apaixonares-te pela casa antes de fazeres as contas

Depois de quereres mesmo um imóvel, é muito mais fácil justificares uma prestação demasiado alta ou gastares a reserva que querias manter.

2. Assumires que vais receber automaticamente 90%

O limite de 90% para habitação própria e permanente é um máximo macroprudencial, não uma promessa. A instituição pode financiar menos e a avaliação do imóvel também influencia o LTV.

3. Contares com Garantia Pública ou IMT Jovem sem confirmares requisitos

São medidas muito relevantes, mas não se aplicam automaticamente a todos os jovens. Confirma idade, rendimentos, propriedade anterior, valor do imóvel, datas e restantes condições.

4. Usar toda a poupança na compra

Uma casa recém-comprada continua a gerar despesas. Móveis, reparações, condomínio e mudança aparecem precisamente quando tens menos liquidez.

5. Comparar créditos só pela prestação

Prazo, TAEG, seguros, produtos associados e custo total podem alterar muito a comparação entre propostas.

6. Confundir “o banco aprova” com “eu consigo viver com isto”

A instituição avalia o risco do empréstimo. Tu tens de avaliar se a casa encaixa na vida que queres manter.

10 · Já posso começar a procurar?

Se consegues marcar isto, já podes olhar para casas com muito mais contexto.

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Sei quanta poupança quero usar e quanto quero guardar.Não vou esvaziar a conta por defeito.
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Tenho uma prestação objetivo.Não estou a usar simplesmente o máximo financiável.
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Tenho um intervalo de preço.Consigo filtrar anúncios antes de me prender a uma casa.
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Confirmei se posso usar IMT Jovem ou Garantia Pública.Com requisitos atualizados em fontes oficiais.
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Percebo o impacto da avaliação no financiamento.O LTV usa o menor valor entre preço e avaliação.
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Vou comparar propostas pela FINE e pela TAEG.Não apenas pela prestação anunciada.
11 · Perguntas frequentes

As dúvidas que quase toda a gente tem antes da primeira compra.

Não como regra absoluta para todas as operações. No regime geral de habitação própria e permanente, o Banco de Portugal estabelece um LTV máximo de 90%, mas existem operações ao abrigo da Garantia Pública que podem chegar a financiamento de 100% do valor da transação, se todos os requisitos forem cumpridos e a instituição aprovar o crédito.

O Banco de Portugal indica que as prestações totais dos créditos não devem, em regra, exceder 45% do rendimento líquido. Isto é um limite para concessão de crédito; o teu orçamento pessoal pode justificar uma percentagem bastante menor.

Não. O regime pode viabilizar financiamento entre 85% e 100% do valor da transação, mas tens de cumprir os requisitos e a instituição continua obrigada a avaliar a tua solvabilidade.

Não. Pode eliminar ou reduzir IMT e Imposto do Selo em determinadas condições, mas continuam a poder existir custos de avaliação, registos, crédito, seguros e outros encargos.

Pode ser possível, mas a prestação do automóvel conta para a tua taxa de esforço e reduz o rendimento disponível considerado na análise de solvabilidade.

Em Portugal existe um período mínimo obrigatório de reflexão de sete dias a partir da apresentação da proposta de crédito. Durante esse período o cliente não pode aceitar a proposta.

Jorge Blasco Maestre
Equipa editorialJorge Blasco Maestre

Revisão editorial deste guia da Hogareza.

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